A Verdadeira História das Cruzadas

As histórias contadas sobre as Cruzadas são muitas vezes narradas de forma bastante exagerada, cheia de mitos. Isso deve-se principalmente ao fato de que boa parte das histórias criadas e ensinadas foi produzida por pensadores protestantes e iluministas que odiavam a Igreja Católica, querendo que a sociedade da época se afastasse da Igreja.

É importante para todo católico conhecer a história da sua Igreja, e principalmente o que ocorreu verdadeiramente nas Cruzadas, pois esse tema é muito envolto em muitas polêmicas, exageros e mitos que tentam sujar a imagem da Igreja.

Neste artigo, percorreremos as Cruzadas realizadas e explicaremos o que ocorreu em cada uma delas com base em estudos mais recentes de arqueologia e história, e não apenas nas opiniões de pensadores iluministas contrários à Igreja Católica.

É importante ressaltar que nas Cruzadas realmente houve erros, porém, não são como são apontados muitas vezes nas escolas ou nas conversas entre as pessoas. Estudos mais recentes demonstram que, apesar dos seus erros, elas foram muito importantes para manter o Catolicismo, e que muito do que é contado são mitos espalhados sem estudos embasados.

Contexto da época e cultura do homem medieval

Antes de começar qualquer discussão sobre as Cruzadas, é importante entender o contexto da época e a cultura do homem medieval. Em meados do século XI, quando houve a primeira Cruzada, o mundo medieval estava sobre plena expansão do islamismo.

O mapa abaixo mostra a gigantesca expansão islâmica sobre os territórios cristãos através de guerras e domínios pela força:

Os territórios do mundo islâmico em meados do século VII, com o surgimento de Maomé, estavam apenas na Península Arábica. Nos séculos seguintes, por meio da guerra islâmica, a jihad, os islâmicos conquistaram diversos territórios cristãos, massacrando e tomando as terras que ocupavam.

Egito, Síria, Palestina, Jerusalém, Espanha eram territórios cristãos que foram tomados pela expansão islâmica por meio da guerra. Como se pode ver no mapa acima, os muçulmanos, até o século IX, tomaram dos cristãos todo o norte da África, a Espanha, Portugal e todo o Oriente Médio. Chegando no século XI, no início das Cruzadas, os islâmicos tomaram vários territórios do Império Bizantino, chegando às portas de Constantinopla.

É importante deixar claro que essa expansão islâmica foi pela força, pela guerra e pela submissão dos povos ao islã. Não foi pacífica; houve diversos massacres de cristãos. Os que não se convertiam ao islã eram, muitas vezes, mortos. Em outros casos permitiam viver sem se converter, mas não podiam professar a sua fé livremente, tinham que pagar pesados impostos, e viviam oprimidos no território de domínio do islã.

Esse contexto é importante para entendermos que as Cruzadas não foram guerras de agressão contra o mundo pacífico islâmico, e sim guerras de reação a séculos de ataques e expansão do islamismo sobre terras cristãs, e a séculos de massacre e opressão aos cristãos no Oriente, no Norte da África e na Península Ibérica.

Outra parte fundamental de entender sobre as Cruzadas é o contexto social/cultural do tempo medieval. O homem medieval ocidental, por um lado, era extremamente zeloso com sua fé católica, influenciando diversos aspectos da sua vida desde o seu nascimento até a sua morte. O homem medieval levava com muita importância a sua Fé, o que balizava ações tanto do seu cotidiano quanto de grandes objetivos da sua vida. Por outro lado, o homem medieval vivia em um contexto ambiental de muitas guerras e lutas por territórios e poder, tanto na própria Europa quanto fora, o que levava ele a criar uma cultura de luta e sem muita civilidade, muito diferente do homem moderno ocidental, que vive de forma mais “civilizada” e “pacífica”.

É importante entender essa dicotomia do homem medieval, pois é sobre essa ótica de zelo pela fé e da necessidade de guerrear que devemos analisar as ações das Cruzadas e não com base no contexto do homem atual, que, principalmente, entende pouco sobre o contexto intenso de batalhas da época.

Início das Cruzadas

No século XI, os turcos seljúcidas islâmicos já tinham dominado boa parte da Anatólia (atualmente a Turquia) e estavam às portas de Constantinopla, capital do império bizantino, que era cristão. Os turcos tinham estabelecido como capital a antiga cidade cristã de Nicéia, sede do primeiro concílio ecumênico de 325. O imperador bizantino Aleixo I, próximo de ser derrotado pelos turcos, pediu ajuda ao Papa Urbano II para que ajudasse a chamar a cristandade a lutar contra os islâmicos.

Devido a esse pedido, o beato Papa Urbano II, no Concílio de Clermont, em novembro de 1095, chamou a cristandade para a primeira Cruzada, que se baseava em três pilares: a libertação da Cidade Santa de Jerusalém, a defesa dos cristãos contra a violência dos turcos e a carregar a cruz como elemento principal da jornada, trazendo o caráter penitencial da Cruzada.

Vale ressaltar que o Papa Urbano II sabia que seria difícil retirar os nobres cristãos europeus de seus objetivos domésticos apenas para defender e ajudar os bizantinos, que, no final das contas, eram cismáticos com a Igreja. Então, o Papa trouxe um objetivo que unia toda a cristandade da época, que era o zelo por Jerusalém e a tristeza da cidade ter sido tomada dos cristãos pelos islâmicos, para, dessa forma, conter a expansão islâmica, ajudar os bizantinos cristãos e retomar os territórios roubados da cristandade.

Outra questão que o Beato Papa Urbano II trouxe para unir os cristãos na Cruzada contra o avanço islâmico foi o caráter penitencial e espiritual. O Papa ofereceu o incentivo espiritual de uma indulgência plenária a quem tomasse a cruz na Cruzada:

Quem fizer a viagem para libertar a igreja de Deus em Jerusalém unicamente por devoção, e não para obter glória e dinheiro, poderá substituir toda penitência dos pecados pela viagem.

Cânone do Concílio de Clermont, citado em Peters, p.37

Tudo isso deixa claro que as Cruzadas não tinham como objetivo riqueza ou interesses pessoais. Fica ainda mais claro, quando analisamos que era extremamente custoso fazer a viagem para Jerusalém, e que a grande maioria dos cruzados sofreram dificuldades financeiras quando conseguia voltar e sobreviver as batalhas, e certamente não lucraram com ela.

A maioria dos cruzados participava, como se explicou anteriormente, devido ao seu grande zelo pela fé Católica; é óbvio que isso não quer dizer que todo cruzado fosse um santo e participasse apenas por motivos puros e virtuosos, mas a sua fé exercia grande influência sobre os seus objetivos de empreitada.

Sobre a questão de a Igreja conduzir os cristãos a lutarem, há muitas críticas a isso; porém, é importante entendermos que a Igreja Católica era a única capaz de unir a cristandade da época para deter a ameaça islâmica, pois todos os reinos europeus estavam focados nos seus próprios interesses e nas suas próprias batalhas. Além do mais, a doutrina da Igreja Católica permite o uso da força quando há uma causa justa e não há outro recurso para responder a uma ameaça. Fica claro, pelas explicações anteriores, que, para deter a jihad islâmica, não havia outro recurso. E não podemos tirar o contexto histórico da época, um contexto de batalhas e guerras, muito diferente do contexto do homem moderno; então temos que analisar as situações de acordo com o contexto da época e não com o nosso atual.

Por último, é necessário dizer que as Cruzadas não tinham a intenção de conversão pela espada dos islâmicos ao cristianismo, como era feito pela jihad islâmica. Isso nunca foi condição para uma causa justa dentro da Igreja e nem os documentos históricos mostram que isso era um dos objetivos dos cruzados. Os objetivos principais eram retomar os territórios cristãos, conter o avanço islâmico e defender os cristãos oprimidos no Oriente, além da própria salvação.

Primeira Cruzada

A primeira Cruzada iniciou-se em 15 de agosto de 1096 com um exército de 60 mil homens. Chegaram em Constantinopla em 1097 e, apesar dos receios do imperador bizantino Aleixo I pelo tamanho do exército, deixou os cruzados atravessarem Constantinopla e irem em direção à Anatólia.

Antes de continuar, é necessário um parêntese, o imperador Aleixo, apesar de querer a ajuda dos cruzados contra os turcos, também tinha medo do exército cruzado tomar seus territórios que foram perdidos pelos turcos seljúcidas. Então ele, de forma inteligente, fez um acordo com os cruzados de que qualquer território conquistado que antes era do Império bizantino deveria ser devolvido a ele. Essa questão permeia toda a cruzada, principalmente na relação do Império bizantino com os cruzados; esse contraste que existia de seus interesses pessoais e locais com o interesse maior de luta contra o islamismo.

A primeira batalha foi na antiga cidade cristã de Nicéia, onde os cruzados foram vitoriosos, porém não puderam saquear a cidade (essa questão de saque a cidades, era prática habitual nas guerras da idade média, ainda mais quando a cidade não fazia um acordo de rendição, apesar de nunca ter sido uma prática aprovada pela Igreja Católica) pois o imperador Aleixo com medo dos cruzados tomarem a cidade conseguiu fazer um acordo com os turcos para que eles redenssem e entregasse ao domínio bizantino.

Com isso, os Cruzados partiram em marcha pela Anatólia e tiveram inúmeras dificuldades no caminho, muitos cruzados morreram nessa marcha pelo calor extremo no verão da época, escassez de alimentos e doenças. No meio disso tudo, ainda quando chegaram perto da cidade de Dorileia, foram atacados pelos turcos, mas mesmo em uma batalha árdua e resistência por horas, conseguiram vencer a batalha, o que abriu as portas para chegar à grande cidade de Antioquia.

A batalha de Antioquia foi um grande marco para a primeira Cruzada e uma das batalhas mais difíceis. A cidade de Antioquia era gigante para a época, constituía de 300 mil habitantes e, antes da tomada pelos muçulmanos, era uma grande cidade Católica onde São Pedro e Santo Inácio de Antioquia estiveram por um bom tempo. E ainda era muito fortificada com muralhas de 11 quilômetros e mais de 360 torres de proteção. Era uma cidade extremamente difícil de ser tomada.

O início do sítio foi bem complicado, pois os cruzados não conseguiram romper as muralhas e ainda assim eram massacrados nos acampamentos pelos ataques turcos repentinos. Ficaram meses nessa situação, até que os alimentos começaram a acabar e tiveram que matar os próprios cavalos para acabar com a fome. Porém, Boemundo, um dos líderes da primeira cruzada, conseguiu com um grupo de soldados entrar na muralha de forma escondida e abrir os portões para o exército cruzado. Os turcos conseguiram se esconder na cidade no mais interior das muralhas.

Porém um grande exército turco chegou para ajudar a cidade de Antioquia, então os cruzados agora tinham um problema estavam entre os defensores turcos da cidade e um grande exército fora esperando eles.

Nessa situação desesperadora, o que ajudou os cruzados foi a Fé. Conseguiram encontrar a lança de São Longuinho, o que animou o exército cruzado, e, mais do que isso, antes de lutarem, fizeram três dias de jejum e ainda receberam os sacramentos da confissão e da Eucaristia. Mais uma vez, a estratégia militar de Boemundo surtiu efeito e os cruzados batalharam contra o exército turco, que era numericamente muito superior, e venceram. Então, depois disso, a cidade de Antioquia se rendeu.

Isso abriu caminho para irem a Jerusalém, agora mais abastecidos com as provisões de Antioquia. Entretanto, os cruzados não foram direto para Jerusalém, pois ainda tiveram que batalhar em várias cidades vizinhas de Antioquia. Isso foi minando o exército com mortes nos campos de batalha e ainda tiveram que fazer sítio em outras cidades que foram minando os suprimentos, até chegar a um ponto em que alguns poucos cruzados comeram carne de soldados inimigos mortos para sobreviver.

Depois desses meses árduos de batalhas nas cidades vizinhas e, depois de vencê-las, o exército cruzado foi para Jerusalém. Chegando na cidade Santa, no dia 07 de julho de 1099, os cruzados tinham uma missão extremamente difícil. Era um cidade grande, bem fortificada e bem defendida. O sítio começou e os assaltos às muralhas também, mas não foram bem-sucedidos. As armas de sítios que os cruzados tinham estavam em estado muito ruim e os muçulmanos não se rendiam e batalhavam ferozmente para defender a cidade. Só após um batalhão de reforço ter chegado com novas armas de sítio, um jejum de três dias e uma procissão com a lança de São Longuinho em volta da cidade entoando orações, foi possível realizar um assalto bem-sucedido.

Finalmente, 460 anos após a captura da Cidade Santa por Maomé, a cidade de Jerusalém era cristã novamente. Após a invasão, o que era comum no mundo medieval, tanto cristão quanto islâmico, era que a cidade que se recusava a se render, uma vez invadida, ficava à mercê da violência do exército invasor.

Por isso, muitas cidades, quando estavam sitiadas, preferiam fazer acordos para salvar a população, e os que as sitiavam gostavam do acordo porque não perdiam muitos soldados nos assaltos. No caso, em Jerusalém, não houve nenhum acordo de rendição, o que ocasionou a morte de muitos soldados islâmicos e não combatentes, seja para não manter o inimigo na cidade, já que um exército estava chegando, seja pela própria violência da guerra medieval. Temos que lembrar que, apesar de muitos guerreiros serem zelosos com a fé, também eram violentos e seguiam as regras de guerra ditadas na época. Então houve muitos mortos, mas hoje o que é chamado de “Massacre de Jerusalém” tem números muito inflados. Algumas fontes islâmicas dizem que são 75 mil mortos, sendo que dentro da cidade só tinham 30 mil. Os números mais prováveis eram de, no máximo, 3 mil mortos na invasão.

Mas também não é justificado a matança de civis como foi em Jerusalém, mesmo os números sendo menores, não deixa de ser algo ruim e odioso, mas como disse anteriormente infelizmente as guerras sempre tem consequências ruins, tanto as da idade medieval quanto em qualquer outra época. Apenas lembrando que não foram apenas cristãos que foram massacrados, alguns massacres ocorreram em ataques islâmicos, de 6 mil homens, mulheres e crianças cristãs no ataque a Edessa em 1144 e o no século XIII um dos maiores massacres feitos na idade média contra cristãos, onde Baibars matou quase toda a população cristã de Antioquia.

Godofredo, um dos líderes cruzados, ficou como Defensor do Santo Sepulcro para proteger Jerusalém e, assim, formou os Estados Cruzados. Ele ficou com alguns soldados na cidade enquanto a maioria voltou para o oeste. Oitenta por cento do exército foi morto na primeira cruzada. Assim, com o objetivo alcançado, a primeira Cruzada termina.

Segunda Cruzada

No século XII, os muçulmanos se reorganizaram e atacaram os Estados Cruzados, tomando a cidade de Edessa e massacrando sua população. O que fez a Igreja Católica convocar a segunda Cruzada pelo Papa Eugênio III. A segunda cruzada também teve a participação do grande Santo Bernardo de Claraval na pregação. Tanto as exortações do Papa quanto as pregações de São Bernardo Claraval reuniram a cristandade a defender novamente os cristãos do Oriente.

A segunda Cruzada foi um fracasso, muito diferente da primeira. Falharam em libertar Edessa e Damasco e ainda enfraqueceram os Estados Cruzados. Seria melhor para os Estados Cruzados se não fosse a Segunda Cruzada. Vários motivos levaram ao fracasso, a falta de apoio novamente do Império Bizantino, que desta vez até atrapalhou os cruzados, a falta de estratégia militar dos seus líderes, e as decisões em geral fizeram com que as Cruzadas dessem errado, e ainda mais, diminuíssem a moral dos Estados Cruzados frente aos islâmicos.

Terceira Cruzada

Com a ascensão de Saladino, que novamente reuniu os islâmicos na luta contra os Estados Cruzados, conseguiu tomar novamente Jerusalém para o islã e várias cidades dos Estados Cruzados. Com a perda de Jerusalém, o Papa Gregório VIII convocou a terceira Cruzada em 1184.

Essa Cruzada teva a adesão de três grandes monarcas da cristandade da época Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra, Frederico Barbarrosa, alemão e Felipe II Augusto, rei da França. O monarca alemão teve alguns sucessos na sua empreitada, mas um acidente infeliz acabou tirando sua vida e o exército alemão se espalhou (uma parte do grupo ajudou os reis da Inglaterra e da França no sítio de Acre).

Já os reis Ricardo e Felipe tiveram mais êxito. Eles juntaram seus exércitos para fazer a Cruzada juntos e acordaram em ir por uma rota marítima pelo oceano Mediterrâneo para Jerusalém. Tiveram vários sucessos pelo caminho. Conseguiram conquistar a ilha de Chipre (não estava nos planos, mas acabou sendo um ponto logístico para as próximas Cruzadas) e a cidade portuária de Acre. O que ficou também marcado nessa Cruzada foram as batalhas entre Saladino e Ricardo Coração de Leão, que usaram diversas estratégias inteligentes na luta um contra o outro. Porém, a terceira Cruzada não conseguiu retomar Jerusalém; o que obteve foi uma trégua temporária entre cristãos e islâmicos para que pudessem acessar a cidade livremente.

Antes de falar da quarta Cruzada, é preciso apenas fazer um adendo sobre Saladino. No imaginário ocidental, ele é apresentado como o guerreiro nobre, o perfeito cavalheiro, um pagão tolerante e nobre. Porém, a verdade não é bem essa, ele realmente foi um líder militar excepcional e grande político que conseguiu várias vitórias e reuniu o mundo islâmico, mas ele não era tolerante com os cristãos e eles nem eram bem tratados na sua governança. Na verdade, muitos foram mortos no seu reinado. Essa característica de “bonzinho” foi colocada pelos iluministas séculos depois da sua morte, principalmente por Voltaire, que fez isso para mais uma vez tentar diminuir a imagem dos cristãos, fazendo um contraste entre ele e os líderes cristãos, que eram colocados como mesquinhos e arrogantes.

Quarta Cruzada

A quarta Cruzada foi uma das piores que tiveram, muito por falta de planejamento, de obediência à Igreja Católica e de habilidade diplomática de seus líderes. Inocêncio III convocou a quarta Cruzada em 15 de agosto de 1198.

A quarta Cruzada iria percorrer o caminho até Jerusalém pelo mar, então fizeram um tratado com o povo de Veneza antes da viagem para construir uma gigantesca frota que levasse todo o exército. Porém, na época da viagem, a quantidade de soldados que se apresentaram para a Cruzada foi muito inferior ao estimado, então não tiveram como efetuar todo o pagamento, ficando em dívida com o povo de Veneza.

Todos os problemas da quarta Cruzada começaram neste ponto. A partir disso os cruzados começaram a fazer missões para Veneza para pagar a dívida. Atacaram uma cidade rival de Veneza, chamada Zara. O Papa Inocêncio III condenou esses ataques, pois eram cidades cristãs e não eram os objetivos da Cruzada.

Mesmo com o ataque em Zara os cruzados ainda estavam em dívida com os Venezianos e ainda sem possibilidades de fazer a Cruzada, receberam a visita do filho do imperador bizantino deposto, Aleixo Angelo, que fez uma proposta aos cruzados se o ajudasse a retornar o poder que foi deposto pelo seu tio. A proposta era que ele iria unir a Igreja Bizantina com a de Roma, juntar-se à cruzada com um exército de 10 mil homens e pagar 200 mil marcos esterlinos para cobrir a dívida veneziana e ainda custear toda a cruzada. Os cruzados infelizmente aceitaram.

Porém, é importante deixar bem claro que a Igreja Católica foi totalmente contrária a essa campanha de ataque a Constantinopla. O Papa Inocêncio III diversas vezes reprovou em cartas e ordenou que os cruzados voltassem e não seguissem o plano de ajudar Aleixo Angelo no ataque a Constantinopla. O que, no final, com a desaprovação do Papa, essa empreitada acabou não sendo mais uma Cruzada, e sim um exército por motivos próprios que quis fazer essa campanha.

A campanha de Constantinopla para voltar ao poder Aleixo Ângelo contra o seu tio, teve várias reviravoltas, batalhas, até que no final conseguiram vencer e colocar Aleixo Ângelo no poder. Entretanto, Aleixo não cumpriu todas as promessas com o exército do Ocidente e ficou por muito tempo protelando o cumprimento dessas promessas. Até que depois de muitos problemas entre os ocidentais e o novo imperador de Constantinopla, os cruzados atacaram a cidade e conseguiram vencer e saquear a cidade.

A quarta Cruzada acabou antes de iniciá-la, pois os cruzados desviaram-se totalmente de seus objetivos e atacaram outras cidades cristãs, mesmo sem a aprovação da Igreja Católica. Depois que o Papa Inocêncio reprovou as campanhas em Zara e Constantinopla, aquele exército deixou de ser um exército de Cruzada.

“Cruzadas das Crianças”

A “Cruzada das Crianças” está entre aspas porque no final das contas ela não foi nem uma Cruzada e nem eram crianças. Esse foi um dos mitos espalhados há muito tempo pelas pessoas que são contrárias à Igreja Católica. O que realmente aconteceu foi que um grande grupo de jovens adultos e adolescentes, não militares, se uniram em oração e pelo desejo de ajudar e defender os cristãos do Oriente. Marcharam para encontrar com o rei da França e solicitar a autorização para realizar uma Cruzada. Obviamente, o rei, ao ver apenas aqueles jovens, os dispensou e falou para voltarem para casa.

Muitos voltaram para suas casas, porém, uma boa parte foi para a Alemanha reunir mais pessoas civis e tentar novamente a autorização do Papa para realizar a Cruzada. O papa da mesma forma dispensou eles, e então se dispersaram e muitos ficaram pela Italia, outros voltaram para sua terra natal e alguns tentaram pegar embarcações para a Jerusalém mas sem muito sucesso.

Essa “Cruzada” foi bastante exagerada pelos oponentes da Igreja Católica, como o iluminista Voltaire, mas nos documentos históricos fica bem claro que nenhum Papa convocou esses jovens para luta e defesa da cristandade, eles não foram a luta, na verdade foram dispensados pelo rei e pelo Papa, e muito menos eram criançinhas como são colocados nas imagens dos livros de história.

Quinta Cruzada

A quinta Cruzada foi proclamada por Inocêncio III por volta de 1215. A quinta Cruzada teve sucessos modestos na luta contra o Islã. A rota seria diferente das outras Cruzadas, a campanha começaria pelo Egito e posteriormente seguiria para a Terra Santa.

Conseguiram tomar a cidade de Damieta e, depois, foram oferecidos aos cruzados pelo sultão do Egito acordos nos seguintes termos: devolver a Vera Cruz e dar territórios na Palestina para os cruzados, porém, eles foram recusados. O que acabou sendo um erro de decisão na época, pois nas batalhas seguintes os cruzados foram derrotados e tiveram que fazer um outro acordo menos favorável. A quinta Cruzada acabou não saindo da melhor forma.

Sexta Cruzada

A sexta Cruzada pode-se dizer que foi a Cruzada liderada pelo Rei São Luís IX da França. Ele seguiu a mesma rota da quinta Cruzada por Damieta. Conseguiram rapidamente vencer a cidade, mas posteriormente, no ataque a Mansura, antes de Cairo, o exército cruzado foi derrotado e o rei capturado. Ficou por volta de um mês aprisionado, os muçulmanos tentaram o converter mas sempre ouviam a mesma resposta: “podes muito bem matar meu corpo, mas jamais tereis minha alma.” Depois foi liberto e ficou um tempo nas cidades cristãs dos Estados Cruzados ajudando e fortificando-as e depois voltou para a França.

Posteriormente, Baibars, um violento general islâmico, se tornou sultão do Egito e de Damasco e conduziu uma campanha violenta contra os cristãos dos Estados Cruzados. Venceu e matou milhares de cristãos, inclusive a maior chacina da época das Cruzadas em Antioquia. Baibars fechou as portas da cidade e matou milhares de cristãos.

Devido a esse violento ataque, São Luís IX voltou a fazer mais uma cruzada, porém, na cidade de Tunis, onde iria iniciar as batalhas, morreu aos 56 anos de um surto de doenças que tinha no acampamento de batalha. Dessa forma, os Estados Cruzados chegaram ao fim.

A Defesa dos Cristãos do Ocidente

As Cruzadas, da forma que vimos, chegaram ao fim com o colapso dos Estados Cruzados, porém, o espírito das Cruzadas permaneceu nas lutas, especialmente com o surgimento dos turcos otomanos, que tentaram expandir o islamismo pela Europa. Dessa vez os “cruzados” lutaram para defender a Europa cristã. As principais batalhas foram as de Malta, Lepanto e Viena. Essas vitórias foram primordiais para manter a Europa cristã e para expulsar os turcos otomanos islâmicos do Ocidente.

Conclusão

Fica muito claro como as Cruzadas lideradas pela Santa Igreja Católica foram importantes para conter o avanço islâmico sobre a Europa. A primeira Cruzada foi a que teve mais sucesso, além de conter o islamismo no Ocidente, retornou territórios cristãos no Oriente Médio, protegeu e deu liberdade aos cristãos oprimidos e ainda retornou Jerusalém para o cristianismo.

As outras Cruzadas apesar de não terem tanto sucesso elas serviam como uma resistência cristã ao islamismo, impedindo os mulçumanos de conseguirem se organizar e realizar uma jihad dentro da Europa. Olhando para o aspecto maior, essas cruzadas serviram ao seu propósito de impedir a extinção do cristianismo ocidental.

É importante deixar claro que a Igreja não é favorável a guerras, mortes ou violência, e tampouco a Igreja Católica ensina que a guerra seja algo desejável. Pelo contrário, a Igreja sempre ensinou que a paz é o caminho ideal e que a guerra deve ser sempre o último recurso, utilizada apenas diante de uma causa justa e quando não há outro meio possível de defesa. Contudo, dentro do contexto histórico da época, marcado por constantes invasões, massacres e expansão militar islâmica sobre territórios cristãos, as Cruzadas foram uma resposta defensiva e um mal necessário para proteger a cristandade do Ocidente. Julgar esses acontecimentos sem considerar a realidade do século XI é desconsiderar completamente o cenário em que tais decisões foram tomadas.

Por isso, é muito importante que todo católico entenda a verdadeira história das Cruzadas, até para defender a sua Igreja contra diversos mitos, inverdades e exageros espalhados sobre essas batalhas, principalmente por iluministas de séculos posteriores que queriam deturpar essa história.

Referências Bibliográficas